Caiu o saudoso Colégio Diocesano, em Assis

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Colégio Diocesano de Assis, foto de 2011.

Assisenses assistem à passagem do apagador por sua história

Guilherme Xavier Ribeiro

Passei sete anos longe de Assis, minha cidade natal. Confesso que, racionalmente, não tinha muito apreço pela cidade. Era muito pouco ante à totalidade do mundo, e eram poucos os que se davam conta da pequena porção que representava.

Por outro lado, longe da razão, o coração, nostálgico que é, sempre trepidava quando certas imagens da pequena vinham à mente. Tantos e tantos por cento delas se passavam em um lugar: o Colégio Diocesano.

Por acaso do destino e para o bem do meu auto-entendimento, acabei voltando de São Paulo para morar num local cujo trajeto até o novo trabalho – sim, só pode ser brincadeira! – passa pelas mesmas ruas de quando ia da minha antiga casa até meu antigo colégio.

E é triste tê-lo como antigo. Mas como diz Saramago, “a alegoria chega quando descrever a realidade já não serve”. Então imagine por aí um garoto que nada sabe do mundo, numa cidade que considera ser o mundo todo. Quinze anos depois esse mesmo garoto pega sua bicicleta – por sinal, a mesma de quinze anos atrás,e sai de casa mais uma vez para trabalhar, disposto a pedalar recordações para esquentar o começo do dia. Então passa pela rotatória, vê o Chicão, sobe a Dr. Dória. Algumas casas ali estão intactas desde aquela época.

Acaba a subida e começa um longo suspiro de alívio pelo esforço. Mas logo passa, e volta a suspirar duas quadras depois, quando passapelo velho Colégio Diocesano. O prédio está parte em ruínas, mas ainda cheio de referências físicas do edifício datado do meio do século passado e que formou milhares de assisenses desde então.

Uma simples parada ali me lembrava o gordinho que nunca era escolhido para o time de futebol, apesar de amar jogar bola, no parquinho do prezinho. O cheiro de massinha de modelar, as filas separadas em meninos e meninas (!), o salão de atos com ladrilhos de madeira, a Tia Milka, a Tia Graça e a Tia Andreia, a Tia Valquíria. Também a tia Lurdinha da limpeza e a tia mãe do Renan, de quem não recordo o nome.

Lembrei tambémda escada que ligava o primário ao pátio. “Pa, pa, pa, pa, pa!”, faziam as mochilas com rodinhas que batiam nos degraus. Lá em cima estava a Tia Ana tocando violão para acordar a meninada do acantonamento. Também tinha a Tia Dora, a Dinorá, a Lurdinha, a Jandira, o Rodney, o Wilsão, o Serjão, representantes dos mandos da irada carinhosa Dona Isa.

Dali pra baixo eu fui feliz. O pátio com as mezinhas de azulejo sob duas grandes árvores, entre a saída da biblioteca, o “jardim de Versalhes”, o caminho da cantina, e as quadras, ao fundo, com a piscina ao centro. Desgraçado do sinal, que batia tão rápido. Decretava o fim do recreio e mandava a meninada pra classe com um colar de suor no uniforme.
Pô, logo nessa época, quinta série, que a gente começava a olhar diferente para as garotinhas.

Mais algumas dezenas de passos por ali e é possível imaginar o palquinho das festas juninas, as primeiras bombinhas, a fila dos famigerados da cantina. As árvores cuja a lenda diocesânica dizia ser pé de cacau. Cadê todo mundo? Cadê eu? Queria é me lembrar de como eu era, como eu andava, falava, interagia, sentia…
Eis então que minha vontade de lembrar pudera ser saciada até ontem.
Hoje, pela manhã fria, que para afiar a nostalgia, é a primeira com cara de outono no ano, saí de casa de bicicleta, passei o Chicão, subi a Dr. Dória, suspirei de canseira e logo na sequência, ao fim da subida, passando a Casa Grande, eu fui é suspirar de verdade. Agora, de tristeza.

Os restos do Diocesano estavam sendo demolidos de vez.

Eu freei. Não só a bicicleta, mas freei o andamento da vida para não colocar nada em mente, na tentativa de fixar de vez todas as minhas lembranças naquele último adeus. À construção, e a uma parte de mim. Mas o freio não resistiu à chegada avassaladora da tristeza.

É que “cada tauba que caía, duia no coração”.

E já que o Adoniran foi citado, porque não dar voz a ele pra entender que a falta de zelo com a memória do povo (aqui, especificamente da elite assisense) já vinha lá dos anos 50, e ainda dá às caras por aqui.

“Era uma casa veia, um palacete assobradado (ou mau assombrado?). Foi aqui, seu moço, que eu, Mato Grosso e o Joca (também o Léo, o Neto, o Raul, o Martinez, o Carlinhos, a Pri, a Elô, a Mel, a Rê, a Carol, a Fer, a Clara, a Isabela – paixãozinha – e até o Luan Santtana!)construímos nossa maloca. Mas um dia, nóis nem pode se alembrá, veio os homicas ferramentas. O dono mandôderrubá.”

Eu, ali, parado, e por mais uma triste ironia do destino ouvindo ‘Saudosa Maloca’, de Adoniran Barbosa, fiquei me perguntando: e se tivessem derrubado o Coliseu? Se tivessem passado o trator por cima de MachuPichu, da Estação da Luz, do Pelourinho? O que seria dessas histórias?

Sim, podemos comparar suas grandezas, já que cada lugar tem seu patrimônio relativo e inerente ao seu tempo e realidade.

E sigo me perguntando: Quão descolado do resto do mundo é o sujeito que não sabe valorizar essa história? É muito claro que essa demolição não parte de um pensamento contemporâneo, tampouco alinhado às novas tendências de mercado.

Após sete anos longe, parece que aqui somente agora se chegou à megalomania do progresso, dos grandes empreendimentos, mesmo que os empreendimentos megalomaníacos da cidade grande estejam repletos de pessoas querendo é voltar à simplicidade.

A verdadeira grandeza já estava ali, tradicionalmente edificada e identificada com a história de seu entorno. Agora, o nosso Coliseu foi demolido. O próximo passo é qual? A Santa Casa?O Santa Maria? E depois, quem vai contar essa história? Homem de lata mandou dizer que um povo sem memória é um povo sem história. Pensei.

Bom, voltando ao meu caminho rumo ao trabalho, para abstrair da minha incapacidade ante aum progresso cego e mal pensado, me restou, por fim, tentar voltar ao Saramago. Que me conforte: “Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória.”

Guilherme Xavier Ribeiro é cineasta. Cursou Propaganda na USP, dirigiu os documentários ‘Sabotage Nós’ e ‘Sobre Coragem!’, foi web repórter e diretor de TV na MTV Brasil entre 2010 e 2013. Atualmente, é diretor de cinema na Red Studios.

Publicado originalmente no site Assis City, em 09/04/2015.

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